Terror

William Wilson: Resumo do Conto do Duplo de Poe

Havia outro menino na escola com o seu nome, sua idade, seu rosto. Ele falava sempre num sussurro e parecia saber dos seus segredos antes mesmo de você cometê-los. Por mais longe que você fugisse, ele aparecia, sempre na hora errada, sempre para arruinar tudo. Até a noite em que você decidiu acabar com ele de uma vez.

Jonathan MachadoJonathan Machado
4 min de leitura859 palavras

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A1 · Iniciante
PT

Deixem que me chamem de William Wilson, embora esse não seja o nome com que vim ao mundo. Carrego uma vergonha grande demais para escrevê-la com letras verdadeiras, e ainda assim preciso contá-la antes que o silêncio me devore. Houve um tempo em que eu era apenas um menino teimoso, dono de uma vontade que ninguém ousava contrariar. Foi nesse tempo que tudo começou, numa escola velha de paredes úmidas, onde o eco dos próprios passos parecia seguir a gente pelos corredores.

ES

Dejen que me llamen William Wilson, aunque ese no sea el nombre con que vine al mundo. Cargo una demasiado grande para escribirla con letras verdaderas, y aun así necesito contarla antes de que el silencio me devore. Hubo un tiempo en que yo era solo un niño terco, dueño de una voluntad que nadie se atrevía a contrariar. Fue en ese tiempo cuando todo empezó, en una escuela vieja de paredes húmedas, donde el eco de los propios pasos parecía seguirte por los pasillos.

PT

A escola ficava numa aldeia inglesa enevoada, dentro de uma casa antiga e enorme, cheia de cantos escuros e portas que rangiam sozinhas. Os sinos da igreja batiam as horas com um som abafado, e cada batida parecia mais um aviso do que uma hora. Eu reinava entre os colegas com a facilidade dos que nunca foram contrariados. Mandava, provocava, vencia. Até o dia em que outro menino entrou na sala e disse o próprio nome.

ES

La escuela estaba en una aldea inglesa con niebla, dentro de una casa antigua y enorme, llena de rincones oscuros y puertas que crujían solas. Las campanas de la iglesia daban las horas con un sonido apagado, y cada campanada parecía más un que una hora. Yo reinaba entre los compañeros con la facilidad de los que nunca fueron contrariados. Mandaba, provocaba, vencía. Hasta el día en que otro niño entró en el aula y dijo su propio nombre.

PT

O nome dele era William Wilson. O meu também. Ele tinha a minha idade, a minha altura, o mesmo jeito de andar, o mesmo rosto que eu via no espelho todas as manhãs. Os outros achavam graça da coincidência. Eu, não. Senti um frio subir pela nuca, como se alguém tivesse aberto uma janela atrás de mim, num quarto onde não havia janela nenhuma.

ES

Su nombre era William Wilson. El mío también. Tenía mi edad, mi altura, la misma manera de andar, el mismo que yo veía en el todas las mañanas. Los demás se reían de la coincidencia. Yo, no. Sentí un frío subir por la nuca, como si alguien hubiera abierto una ventana detrás de mí, en un cuarto donde no había ninguna ventana.

PT

Ele não disputava comigo aos gritos. Fazia pior: contradizia tudo o que eu dizia, calmamente, com uma certeza irritante. Onde eu mentia, ele insistia na verdade. Onde eu humilhava alguém, ele aparecia ao lado do humilhado. E havia um detalhe que me tirava o sono: a voz dele nunca subia. Ele falava sempre num sussurro, um fio de voz baixo e rouco, como se guardasse um segredo que era também o meu.

ES

Él no competía conmigo a gritos. Hacía algo peor: contradecía todo lo que yo decía, con c, con una certeza irritante. Donde yo mentía, él insistía en la verdad. Donde yo humillaba a alguien, él aparecía al lado del humillado. Y había un detalle que me quitaba el sueño: su voz nunca subía. Él hablaba siempre en un , un hilo de voz bajo y ronco, como si guardara un secreto que era también el mío.

PT

Tentei detestá-lo, e não consegui por inteiro. Às vezes, no meio da raiva, sentia por aquele menino uma espécie de respeito que me envergonhava ainda mais. Ele me imitava: o andar, o tom, as roupas, até o gesto de erguer o queixo quando eu queria parecer superior. Só não conseguia copiar minha voz alta. Por isso falava baixo, e aquele sussurro foi se tornando, para mim, o som mais insuportável do mundo.

ES

Intenté detestarlo, y no lo logré por completo. A veces, en medio de la rabia, sentía por aquel niño una especie de respeto que me avergonzaba aún más. Él me imitaba: el andar, el tono, la ropa, hasta el gesto de levantar la barbilla cuando yo quería parecer superior. Solo no conseguía copiar mi voz alta. Por eso hablaba bajo, y aquel se fue volviendo, para mí, el sonido más insoportable del mundo.

PT

Numa noite, sem aguentar mais, atravessei o dormitório escuro até a cama dele para pregar-lhe um susto cruel. Aproximei a lamparina do rosto adormecido e gelei. Aqueles eram os meus traços, sim, mas de um modo que eu não sabia explicar, como se eu estivesse olhando não um colega, mas a mim mesmo dormindo. Larguei a luz e saí dali em silêncio. Na manhã seguinte, fugi da escola, e jurei nunca mais voltar.

ES

Una noche, sin aguantar más, crucé el dormitorio oscuro hasta su cama para darle un susto cruel. Acerqué la lámpara al dormido y me quedé helado. Aquellos eran mis rasgos, sí, pero de un modo que yo no sabía explicar, como si estuviera mirando no a un compañero, sino a mí mismo durmiendo. Solté la luz y salí de allí en silencio. A la mañana siguiente, huí de la escuela y juré no volver nunca más.

PT

Acreditei estar livre. Entrei para a universidade decidido a viver sem freios, gastando dinheiro, bebendo, mergulhando em todo vício que prometesse esquecimento. Foi ali que descobri meu talento mais sujo: trapacear no jogo. Aprendi a marcar cartas, a fingir embriaguez, a depenar rapazes ricos e ingênuos com um sorriso no rosto. Por um tempo, ninguém desconfiou. Eu me achava intocável.

ES

Creí estar libre. Entré en la universidad decidido a vivir sin frenos, gastando dinero, bebiendo, hundiéndome en todo vicio que prometiera olvido. Fue allí donde descubrí mi talento más sucio: hacer en el juego. Aprendí a marcar las cartas, a fingir borrachera, a desplumar a muchachos ricos e ingenuos con una sonrisa en la cara. Por un tiempo, nadie sospechó. Yo me creía intocable.

PT

Numa noite de cartas, com um jovem nobre quase arruinado na minha frente, a porta se abriu de repente. Uma corrente de ar apagou as velas pela metade, e um vulto entrou enrolado numa capa. Ninguém viu seu rosto. Ele se aproximou da mesa, inclinou-se para o meu ouvido e, naquele sussurro que eu reconheceria entre mil, revelou aos presentes exatamente como eu trapaceava. Depois saiu, e a sala inteira virou-se contra mim em silêncio.

ES

Una noche de cartas, con un joven noble casi arruinado frente a mí, la puerta se abrió de repente. Una corriente de aire apagó las velas a medias, y una figura entró envuelta en una . Nadie vio su . Se acercó a la mesa, se inclinó hacia mi oído y, en aquel que yo reconocería entre mil, reveló a los presentes exactamente cómo hacía . Después salió, y la sala entera se volvió contra mí en silencio.

PT

Expulso, marcado pela vergonha, recomecei a fugir. Atravessei cidades e países como quem foge da própria sombra. Paris, Roma, Viena, Berlim: em cada uma delas, no instante exato em que eu armava um golpe ou seduzia uma vítima, ele aparecia. Sempre a capa, sempre o vulto, sempre o sussurro no meu ouvido, desmanchando tudo. Eu nunca via o rosto inteiro, mas sabia, com um pavor cada vez maior, que era o mesmo. Sempre o mesmo William Wilson.

ES

Expulsado, marcado por la , volví a . Atravesé ciudades y países como quien huye de su propia . París, Roma, Viena, Berlín: en cada una de ellas, en el instante exacto en que yo armaba un engaño o seducía a una víctima, él aparecía. Siempre la , siempre la figura, siempre el en mi oído, deshaciéndolo todo. Yo nunca veía el entero, pero sabía, con un pavor cada vez mayor, que era el mismo. Siempre el mismo William Wilson.

PT

Comecei a perguntar a mim mesmo quem era aquele homem. Como sabia dos meus planos antes mesmo de eu agir? Como chegava primeiro, sempre? Ele não me roubava nada, não me batia, não pedia dinheiro. Só me impedia. Era como ter, colado à pele, alguém que conhecia cada canto podre da minha alma e se recusava a me deixar afundar em paz.

ES

Empecé a preguntarme quién era aquel hombre. ¿Cómo sabía mis planes antes de que yo actuara? ¿Cómo llegaba primero, siempre? Él no me robaba nada, no me golpeaba, no me pedía dinero. Solo me lo impedía. Era como tener, pegado a la piel, a alguien que conocía cada rincón podrido de mi y se negaba a dejarme hundir en paz.

PT

O ódio cresceu até virar uma fome. Eu não queria mais fugir: queria destruí-lo. Em Roma, durante um baile de carnaval, num palácio cheio de máscaras, música e luz, eu o vi. Ou melhor, senti aquele sussurro tocar meu ouvido outra vez, no momento em que eu me aproximava da mulher de um velho nobre. Foi a gota final. Não pensei mais. Algo dentro de mim, frio e antigo, decidiu que aquela seria a última noite.

ES

El creció hasta volverse hambre. Yo ya no quería : quería destruirlo. En Roma, durante un baile de carnaval, en un palacio lleno de máscaras, música y luz, lo vi. O mejor dicho, sentí aquel tocar mi oído otra vez, en el momento en que me acercaba a la mujer de un viejo noble. Fue la gota final. No pensé más. Algo dentro de mí, frío y antiguo, decidió que aquella sería la última noche.

PT

Agarrei-o pelo braço e arrastei-o para uma antessala vazia. Saquei minha espada; ele, sem hesitar, sacou a dele. Trocamos golpes rápidos no espaço apertado, e a fúria me deu uma força que eu não conhecia. Encurralei-o contra a parede e, num só impulso, cravei a lâmina fundo em seu peito. Ele cedeu. Naquele instante, alguém bateu à porta do salão, e me virei por um segundo apenas.

ES

Lo agarré por el brazo y lo arrastré hacia una antesala vacía. Saqué mi ; él, sin dudar, sacó la suya. Cruzamos golpes rápidos en el espacio estrecho, y la furia me dio una fuerza que yo no conocía. Lo acorralé contra la pared y, de un solo impulso, hundí la hoja honda en su pecho. Él cedió. En aquel instante, alguien golpeó la puerta del salón, y me giré por un segundo apenas.

PT

Quando olhei de novo, algo havia mudado na sala. Onde antes não havia nada, agora se erguia um grande espelho, ou foi o que pensei a princípio. Caminhei em direção a ele atônito. Minha própria imagem vinha ao meu encontro, pálida, manchada de sangue, cambaleando. Era o meu rosto. Era o meu corpo. Era eu, ferido de morte, andando na minha direção.

ES

Cuando miré de nuevo, algo había cambiado en la sala. Donde antes no había nada, ahora se alzaba un gran , o eso pensé al principio. Caminé hacia él atónito. Mi propia imagen venía a mi encuentro, pálida, manchada de sangre, tambaleándose. Era mi . Era mi cuerpo. Era yo, herido de muerte, andando en mi dirección.

PT

Não era espelho nenhum. Era ele, o meu duplo, caído e ofegante, e no entanto idêntico a mim em cada traço, até nas roupas que eu vestia naquela noite. Já não sussurrava. Falava com a minha própria voz, e foi a primeira vez que a ouvi nele, clara e firme, enquanto a vida lhe escapava.

ES

No era ningún . Era él, mi doble, caído y jadeante, y sin embargo idéntico a mí en cada rasgo, hasta en la ropa que yo llevaba aquella noche. Ya no susurraba. Hablaba con mi propia voz, y fue la primera vez que la oí en él, clara y firme, mientras la vida se le esba.

PT

"Venceste", disse ele, "e eu morro. Mas olha bem para mim, agora e sempre. Nesta morte, vê como mataste a ti mesmo." Senti o chão ceder dentro de mim. Cada crime que aquele vulto havia impedido voltou de uma vez, e entendi, tarde demais, quem eu sempre matei naquele duelo. Não um inimigo, não um estranho: a única parte de mim que ainda sabia o que era certo.

ES

"Has vencido", dijo, "y yo muero. Pero mírame bien, ahora y siempre. En esta muerte, mira cómo te has matado a ti mismo." Sentí el suelo ceder dentro de mí. Cada crimen que aquella figura había impedido volvió de golpe, y entendí, demasiado tarde, a quién había matado siempre en aquel duelo. No a un enemigo, no a un extraño: la única parte de mí que aún sabía qué era lo correcto.

PT

Hoje escrevo isto sem ela. O homem que sobrou não tem mais quem o segure à beira do abismo, nenhum sussurro para detê-lo no escuro. Ganhei a luta e perdi a alma no mesmo golpe. E se ainda há um aviso nestas páginas, é só este: tenham cuidado com a voz baixa que insiste em nos corrigir, porque o dia em que conseguimos calá-la é o dia em que morremos por dentro, e continuamos respirando.

ES

Hoy escribo esto sin ella. El hombre que quedó ya no tiene quien lo sostenga al borde del abismo, ningún que lo detenga en lo oscuro. Gané la lucha y perdí el en el mismo golpe. Y si todavía hay un en estas páginas, es solo este: tengan cuidado con la voz baja que insiste en corregirnos, porque el día en que conseguimos callarla es el día en que morimos por dentro, y seguimos respirando.

ESVocabulário da história

Sobre a obra

"William Wilson" é um conto de Edgar Allan Poe publicado em 1839, considerado uma das grandes obras sobre o tema do duplo (o doppelgänger) na literatura. Em vez de um monstro externo, o terror nasce de dentro: um homem perseguido a vida inteira por alguém idêntico a ele, que sempre aparece para impedir suas maldades.

Poe escreve um terror psicológico, sem sangue gratuito, feito de atmosfera, repetição e angústia. O leitor demora a entender, como o próprio narrador, que aquele perseguidor talvez nunca tenha sido outra pessoa. A leitura ganha um sentido novo na última frase, quando o espelho devolve a verdade.

Edgar Allan Poe (1809-1849) foi um autor norte-americano mestre do conto de mistério e do horror, criador também do moderno conto policial. Muitas de suas histórias exploram a culpa, a loucura e a fronteira frágil entre razão e abismo, e "William Wilson" é um dos exemplos mais perfeitos disso.

Perguntas frequentes

Quem é o segundo William Wilson da história?

À primeira vista parece um colega real, com o mesmo nome, idade e rosto do narrador. Mas o final revela que ele funciona como o duplo do protagonista, sua própria consciência: aquela voz interior em sussurro que tenta impedi-lo de fazer o mal. Ao matá-lo no duelo, o narrador percebe que feriu a si mesmo.

Por que ele fala sempre num sussurro?

O sussurro é o detalhe mais perturbador do conto. O duplo imita tudo no narrador, menos a voz alta; só consegue falar baixo. Esse fio de voz, quase secreto, funciona como o sussurro da consciência, e por isso se torna o som mais insuportável para o protagonista, que reconhece ali algo dele mesmo.

A história é assustadora se eu não gosto de cenas de sangue?

Sim, e justamente por isso. O medo aqui é psicológico: vem da atmosfera, da perseguição que nunca cessa, do frio na nuca e da revelação final. Não há violência explícita nem gore. É um terror de clima e de ideia, daqueles que arrepiam pensando, não vendo.